Nossos times, nossos palcos

Texto originalmente publicado em: http://www.gavetadecueca.com.br/blog/nossos-times-nossos-palcos/

Durante o ano, passo algumas vezes pelo encontro das ruas Artur Vieira e Cristiano Machado. Quando isso acontece forço-me a parar e observar brevemente o gramado que ali está. Alto e mal cuidado, não se parece com aquele dos grandes duelos de uma década atrás no Itaú Esporte Clube. Chamávamos carinhosamente de campinho, mas sabíamos que de diminutivo nada tinha. Era muito importante.

Nasci e sempre morei em Campinas, interior de São Paulo. Mas quem já conversou mais de trinta minutos comigo sabe o lugar de minhas verdadeiras raízes e infindáveis lembranças: uma cidade chamada Itaú de Minas, com quase vinte mil habitantes e sei lá a quantos quilômetros de Belo Horizonte (não pesquisarei essa informação no Google Maps, aqui ela é pouco relevante). Em Itaú meus pais se conheceram, lá está a maior parte de minha família e, como consequência, foi meu principal roteiro turístico durante muitas férias escolares.

O período dezembro/janeiro era o auge de nossa temporada. Sem as aulas e com a combinação “horário de verão e rápidas chuvas de fim de ano”, fantástica para a prática do futebol, os embates começavam pontualmente às 18:00. Nosso horário era incrivelmente preciso para jovens de dezesseis e dezessete anos. Pergunto-me se muitos aplicavam essa pontualidade à suas rotineiras tarefas. Tenho minhas dúvidas.

Sem precisar agendar ou criar eventos no Facebook, os grupos chegavam. Três, até quatro equipes. Mesmo com o revezamento provocado pelo famoso tira-time, invariavelmente jogávamos com escalação semelhante. Entrosamento, você entende. Era muito melhor jogar com os amigos para que, antes de ir embora, pudéssemos relembrar jogadas, momentos engraçados e o que deu certo ou errado, tudo isso sob o calor da estação que permitia conversas extendidas até dez da noite.

Lá estávamos no dia seguinte e no outro. Mesmo quando fortes chuvas pareciam inibir nossa vontade de jogar, os desistentes eram poucos. Passavam-se os dias e surgia uma certa rivalidade entre os times, resultando em jogadas mais ríspidas e discussões aqui e acolá. No entanto, a seriedade e tensão das pelejas geralmente duravam apenas até às 19:30, quando alguém propositalmente isolava a bola, dando origem à uma série de dribles sem sentido. Eu admito que não gostava disso. Como alguns deles não jogavam pra valer até acabar? Aquela era nossa Libertadores, nossa Liga dos Campeões. Reconheço um sentimento familiar quando recordo desse incômodo. Acho que pensaria assim ainda hoje.

Quem joga futebol, mesmo como recreação em quadras e lugares distantes do profissionalismo, certamente se lembra de algum gol especial, de buscar uma vitória na raça, de abraçar aqueles amigos que eram sua fonte de confiança dentro e fora das quatro linhas. Era bom saber que você não tinha escolhido as pessoas erradas. Afinal, além de comemorar gols no campinho, com esses mesmos amigos gritamos muitos gols do nosso clube (o profissional, coincidentemente escolhido pela maioria). Em janeiro, também discutíamos sobre contratações da temporada e quais chances reais de títulos esse clube tinha ao longo do ano. E entre jogos e debates, víamos a aproximação do término das férias. Restava aguardar as próximas.

Sem pretensão, posso dizer que conheci alguns – poucos – estádios com belos gramados pelo mundo. No entanto, para mim, nenhum tem a importância daquele, onde tanto jogamos e infelizmente não pisamos há um tempão. Ainda bem que meus companheiros, muitos deles, continuam meus amigos. Hoje cada um atua de forma diferente, com a versatilidade que, tal qual num esquema tático de futebol, a vida nos ensina a ter. Mas apesar de não entrarmos juntos no velho campinho do Itaú Esporte Clube, é uma felicidade imensa ver que ainda somos um time. E dos bons.

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